reveillon nao

 

 

Este ano estou tendo a oportunidade de viver experiências riquíssimas e únicas na comunidade onde moro. Como diria o Artur Xexéo, “os meus 14 leitores” sabem que vivo numa vila pequena, com menos de mil habitantes onde nem sempre todos concordam, mesmo nos assuntos de interesse geral. Em abril realizamos um projeto bacana, levantamos quase 40 mil reais e entregamos durante 6 meses cestas básicas aos trabalhadores da praia que ficaram sem os turistas que normalmente chegam em escunas e chalanas. Estávamos nos preparando para um verão com todos os cuidados, isolamento social, o que é muito fácil diante da enorme extensão de praia que temos, quando apareceram 4 produtores do Rio e São Paulo com um projeto para uma grande festa de réveillon.

 

Eu disse não ao convite para uma reunião. Mas um produtor paulista pediu que recebesse os visitantes e chegaram à minha casa duas moças e dois rapazes. Logo no início percebi o nível da loucura, tanto ao apresentarem o projeto com intenção de aglomerar 800 pessoas em 7 dias de festa em tempos de distanciamento, quanto à pouca informação e conhecimento do perfil do povoado. As moças já conheciam de duas curtas temporadas de 1 semana, e os rapazes vieram pela primeira vez.  Uma sensação de invasão e total falta de respeito foi pra mim a resultante dessa reunião.

 

Não sabiam que somos uma APA (Área de Proteção Ambiental), que os nossos turistas gostam da tranquilidade, viajam com família,  por vezes com muitas crianças que andam pelas ruas à pé ou de bicicleta, ainda tem a turma da ashatanga yoga que sai de casa cedinho para as práticas carregando uma bolsa com o tapetinho nas costas, tem os que já passaram dos 60 e se deliciam com nosso mar de poucas ondas, e todos amam no final do dia ir para a beira do rio assistir ao show das maritacas quando voltam para o mangue...É uma vila simples, encantadora, com pouco mais do que 2 km de extensão, onde todos se cumprimentam na rua, e não precisa de grandes festas, pois estar aqui de férias já é um show...

 

Mas os produtores não desistiram, mesmo sem autorizações das secretarias de Saúde e de Meio Ambiente, continuaram com a proposta em campanhas nas redes sociais, vendendo ingressos e sonhos, e esta semana convocaram moradores e empresários para uma reunião... “Queremos ouvir a vila”, diziam eles... Mesmo com chuva, lá fomos levar o nosso parecer. Eu achava que muitos pensavam como eu, mas não imaginava quantos mais estavam na mesma vibe... E foi um desfile de NÃOS em alto e bom som. E os produtores ouviam sem se abalar. Cheguei a ouví-los dizer que tinham um projeto para o futuro de Santo André.... como assim ???

 

Lembrei que há 16 anos, quando me preparava para o semestre sabático que se tornou em uma mudança radical na minha vida, estava com muitas dúvidas e fui conversar com uma astróloga que disse algo que ainda me norteia: não faça o que você acha que é bom para a comunidade, espere ver o que eles precisam.  E é neste pensamento que tenho construído a minha relação com Santo André.  Por isso que ri, achei ingênuo, petulante, a produtora dizer que tinha uma fórmula para a vila sem jamais ter vivido temporadas de baixa estação, épocas de chuva, as enormes crateras que surgem nas ruas, falta d’agua, as discussões do preço da balsa, a falta de médico no posto de saúde, as podas deixadas nas ruas, enfim, todas as mazelas que o povoado tem e só quem aqui vive conhece...

 

Bom, mas apesar de todos os NÃOS dos moradores e empresários, eles insistem em fazer os 7 dias de festas repletos de pessoas em plena interação social. Continuam anunciando em suas redes sociais, vendendo o que estamos conscientemente contra.

 

Nós que não estamos de passagem por  Santo André, mas SOMOS  Santo André,  buscamos as possibilidades para que o nosso NÃO chegue a um número cada vez maior de pessoas através das redes sociais, quem sabe o nosso grito chegue nas páginas de um jornal de circulação nacional,  num caderno de turismo que conte a história de um pequeno povoado praiano que quer apenas preservar seus moradores e turistas habituais ... Estamos  em uma cidade que não tem hospital em funcionamento, utilizamos o hospital municipal de Porto Seguro cuja UTI já está no talo... Segundo o decreto do Governador da Bahia Rui Costa, até 15 de novembro eventos só até 200 pessoas. Do jeito que anda o movimento do vírus, creio que o bom senso manda continuar neste clima... E com a comunidade unida de uma forma jamais vista, acredito que vamos mais do que vencer o vírus. Vamos nos livrar do que pode ser um grande problema para os moradores e turistas que amam e respeitam a vila, e celebrar o réveillon como sempre fazemos à beira mar, com os visitantes de sempre, em clima de paz, amor e principalmente saúde...

 

Léa Penteado é jornalista e webmaster deste site.